Perimenopausa: o que é, quais os sintomas e porque ninguém nos avisou...

Terapia Hormonal da Menopausa: estamos a entrar numa nova era?

15/02/2026

 

Durante mais de 20 anos, muitas mulheres ouviram a mesma frase, dita com ar definitivo:

“Já passou da idade para fazer terapia hormonal.”

Mas… e se essa regra não for assim tão simples?

E se estiver baseada em dados antigos, interpretações excessivamente cautelosas e numa visão pouco personalizada da saúde feminina?

Um artigo publicado em janeiro de 2025 na The Lancet Diabetes & Endocrinology, assinado por Sasha Taylor e Susan R. Davis, veio relançar uma discussão essencial: é tempo de rever as recomendações para o início da terapia hormonal da menopausa (THM)?

A resposta curta: sim.

A resposta longa — e importante — explico-te neste artigo.


De onde vêm as regras dos “60 anos” e dos “10 anos”?

Para percebermos onde estamos hoje, é preciso recuar a 2002, quando foram publicados os primeiros resultados do famoso estudo Women’s Health Initiative (WHI).

Esses dados sugeriam um aumento do risco de cancro da mama, AVC e outros eventos cardiovasculares em mulheres a fazerem terapia hormonal combinada. O impacto foi enorme — quase traumático — tanto para médicos como para mulheres.

📉 Em poucos anos, a prescrição de terapia hormonal caiu drasticamente.
Surgiu então a chamada “janela de oportunidade”:

  • iniciar antes dos 60 anos, 
  • ou até 10 anos após a menopausa
     

Tudo o que estivesse fora desse intervalo passou a ser visto como perigoso.

O problema?

Essas recomendações basearam-se em dados que hoje sabemos estar descontextualizados.


O que mudou desde então?

Muita coisa. E a ciência não ficou parada.

Nas últimas duas décadas:

  • percebemos que nem todas as mulheres envelhecem da mesma forma
  • aprendemos que os sintomas da menopausa podem durar muito mais tempo do que se pensava
  • refinámos o conhecimento sobre doses, vias de administração e perfis de risco

Hoje sabemos que:

  • cerca de 40% das mulheres têm sintomas vasomotores durante mais de 10–14 anos
  • mais de 40% das mulheres entre os 60 e os 65 anos continuam com afrontamentos e suores noturnos
  • muitas dessas mulheres têm bom perfil cardiovascular e continuam sem opção terapêutica… apenas por causa da idade

É precisamente aqui que entra a proposta de Taylor e Davis.


Idade cronológica ≠ idade biológica

Um dos pontos centrais do artigo é simples, mas poderoso: usar a idade como critério absoluto é biologicamente simplista.

Duas mulheres com 62 anos podem ter:

  • perfis metabólicos completamente diferentes
  • níveis de inflamação distintos
  • riscos cardiovasculares opostos
     

Negar terapia hormonal apenas com base na data de nascimento não é medicina personalizada — é medicina administrativa.

As autoras defendem que a decisão deve ser baseada em:

  • sintomas 
  • qualidade de vida
  • avaliação individual de risco e,
  • escolha adequada da formulação

A grande viragem: a via de administração importa (muito)

Outro ponto-chave deste novo paradigma é a diferença entre estrogénio oral e transdérmico.

🔴 O estrogénio oral:

  • passa pelo fígado 
  • aumenta fatores de coagulação
  • está associado a maior risco de AVC em mulheres mais velhas
     

🟢 O estrogénio transdérmico (adesivos, gel ou spray):

  • evita o metabolismo hepático
  • tem risco vascular neutro ou mínimo em doses baixas
  • é hoje considerado a via preferencial, especialmente em mulheres acima dos 60 anos
     

Este detalhe muda completamente o jogo — e durante anos foi pouco comunicado.


Terapia hormonal como estratégia de geroproteção

Talvez a ideia mais revolucionária deste novo olhar seja esta: a terapia hormonal não serve apenas para “apagar sintomas”.

O estrogénio atua em múltiplos mecanismos associados ao envelhecimento:

  • inflamação crónica
  • perda óssea
  • resistência à insulina
  • disfunção mitocondrial
  • alterações epigenéticas
     

Na prática, isto significa que a THM pode:

 

  • reduzir drasticamente o risco de fraturas
  • proteger a saúde metabólica
  • preservar massa muscular e função física 
  • contribuir para um envelhecimento com mais qualidade de vida

    Não é uma “fonte da juventude”, mas pode ser uma ferramenta de proteção do tempo de saúde (healthspan).

E a segurança? O que dizem as diretrizes mais recentes?

É importante ser clara:
❌ a terapia hormonal não é para todas,
❌ e não deve ser iniciada sem avaliação cuidadosa

Mas também não deve ser automaticamente excluída.

As diretrizes mais recentes continuam a alertar para riscos com:

  • estrogénio oral em mulheres mais velhas,
  • contextos de doença cardiovascular ativa
     

Por outro lado:

✔️ reconhecem maior segurança do estrogénio transdérmico

✔️ consideram o estrogénio vaginal seguro, mesmo em mulheres com história de AVC

✔️ reforçam a importância da decisão partilhada

Um marco importante aconteceu em 2025: a FDA iniciou a remoção dos avisos de “black box” dos produtos de terapia hormonal, reconhecendo que os riscos foram exagerados e mal comunicados durante anos.


E a testosterona? Nem tudo o que reluz é ouro

Apesar do entusiasmo crescente nas redes sociais, a evidência é clara:

  • a testosterona não é uma solução geral para vitalidade, massa muscular ou cognição, 
  • o único uso comprovado é no transtorno do desejo sexual hipoativo, em doses fisiológicas

    Aqui, mais uma vez, menos marketing e mais ciência.

Menopausa, trabalho e o “choque da meia-idade”

Taylor chama a atenção para algo que vejo todos os dias na prática: a menopausa acontece muitas vezes no pico da carreira profissional.

Sintomas não tratados associam-se a:

  • maior exaustão 
  • menor perceção de desempenho 
  • aumento do risco de burnout
     

Não porque as mulheres “ficam incapazes”, mas porque continuam a exigir de si próprias o mesmo… com um corpo diferente.

Falar de menopausa é também falar de equidade no local de trabalho.


Então, o que podemos retirar disto tudo?

As conclusões são claras:

  1. a idade isolada não deve ser uma contraindicação absoluta

  2. a via transdérmica é hoje o padrão de maior segurança

  3. a terapia hormonal pode ser parte de uma estratégia de envelhecimento saudável

  4. a decisão deve ser individual, informada e acompanhada

  5. o maior impedimento continua a ser a falta de formação em menopausa

Estamos a assistir a uma mudança de paradigma. Lenta, mas necessária.

E talvez o mais importante:

As mulheres merecem decisões baseadas na ciência atual — não em medos do passado.

Com informação, escuta e personalização, a menopausa pode deixar de ser um “fim” e passar a ser uma fase de ajuste consciente e cuidado ativo.

Um forte abraço, continuo convosco

Luísa